Pucón

Era um fim de semana normal, fim de mais um domingo,  não via a hora de chegar minhas ferias, faltava apenas uma semana, mas o que eu poderia fazer para aproveitar-las?

Queria ir além da fronteira, mas onde sem passaporte?

Entrei em um site de pesquisa de passagens…

Argentina? Não.

Macchu Picchu no Peru? Não conseguiria reserva para entrar em cima da hora.

Chile? Porque não? Fazendo uma pesquisa sobre lugares onde teria esportes radicais no Chile, localizei uma cidade chamada Pucón, entre o pé do Vulcão Villarrica e um imenso lago. Sim, já sabia para onde eu queria ir.

Sem muito tempo para arrumar tudo, comecei a procurar a mochila que se adaptaria a mim, e como já tive algumas Curtlo que estão em bom estado até hoje, decidi que seria minha escolha.

Com um ótimo atendimento na Mundo Terra de Moema, encontrei a Curtlo Highlander 50+10L que vestiu perfeitamente.

Sempre retorno na Mundo Terra quando preciso de artigos de qualidade para esportes e viagens. Comprei para a travessia Petrópolis-Teresópolis, a Barraca, o Anorak e o Tênis Solomon, Para minha Eutotrip passei na Mundo Terra para comprar minha pequena Curtlo Kalarahi, a mochila que uso em todo fim de semana de corrida na trilha.

Após os preparativos, era hora de partir…

No avião ao me aproximar de Santiago passava um pouco da meia noite, com o céu limpo de lua cheia, foi possível ver a cordilheira abaixo, uma vista magnífica que não pude registrar por estar com a câmera guardada no compartimento de bagagens (erro de iniciante que espero nunca mais repetir), pouco a pouco o avião foi diminuindo a altitude, em poucos minutos não via mais as cordilheiras ao longe em baixo, mas sim ao meu lado, difícil descrever o quão bonito eram aqueles picos nevados iluminados pelo luar que o avião suavemente contornava em aproximação ao Aeroporto Internacional Arturo Merino Benítez

Depois de alguns dias em Santiago peguei o ônibus para Pucón a noite, o que apesar de me ajudar a economizar na estadia, não permitiu que eu aproveitasse a paisagem que sempre pareceu interessante.

Ao chegar em Pucón na manhã seguinte e sair do terminal, segui andando pela avenida principal (Av. Bernardo O’Higgins) com suas construções pitorescas, e fiquei encantado com o lugar, sem dúvidas adoraria morar ali!

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Segui ate o Hostel onde ficaria hospedado, o “La Bicicleta” (Hostel e Restaurante), onde conheci o Dono, Sr. José. Eu tinha pego um quarto individual, como era baixa temporada, José me deu um quarto duplo (uma cama para mim e outra para minha mochila).

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Sem perder tempo, sai em busca de uma agência para fazer a escalada do Villarica, descobri que apenas uma empresa faria a subida devido as péssimas condições. Após fechar o pacote, a atendente começou a me informar tudo que precisaria para a escalada, coisas básicas, como uma luva (yep, eu não tinha luva), perguntei se para escalada eles forneciam uma sobre-roupa, e perguntei se com isto não viria uma luva, ela disse que sim, mas que sem luva de dedo por baixo eu não aguentaria o frio.

Aproveitei para comprar minha GoPro que está comigo até hoje, ela teria de passar por sua prova de fogo em Pucón.

Sai da loja e voltei para o Hostel ainda sem ver o Vulcão, devido a grande neblina que tomava o local.

No dia seguinte acordei as 4h da manha, com alguns graus abaixo de zero, esperava uma manhã de tempo aberto, mas o que vi foi apenas o céu fechado.

Pegamos a Van que nos levaria até determinado trecho do vulcão, e conforme ganhávamos altitude  no zig-zag da estradinha de terra a neve da nevasca daquela noite ficava mais evidente, a estrada de terra dava lugar a um caminho cheio de neve, e o branco da estrada confundia-se com o da névoa.

Chegamos na base onde tinha um teleférico que levava esquiadores para as áreas de esqui mais altas, o equipamento naquela época ficava desativado por não ser alta estação, então dali em meio à névoa, começaríamos a subida!

Após cerca de 500 metros, a névoa começava a dissipar, após termos passado da linha das nuvens, pude deslumbrar pela primeira vez o vulcão.

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Conforme ganhávamos altitude, víamos o mar de nuvens que se estendia até onde a vista alcançava, brilhando dourado com a ajuda do sol.

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Subindo, apesar da vista, nem tudo estava fácil, tinha a inclinação que só aumentava, o terreno com gelo que nos obrigava a usar as mesmas pegadas na neve dos guias para evitar escorregar precipício abaixo, e também o vento, que somado a mochila pesada, me fazia desequilibrar por varias vezes, apesar de estar mais preocupado que outra pessoa escorregasse e me levasse junto =D

Com o tempo piorando paramos em uma das poucas áreas ligeiramente planas, onde havia uma casinha de madeira, provavelmente usada como acampamento em caso de emergência, aproveitamos para vestir a roupa para o frio extremo e colocar os grampos nas botas, atividade que não deveria demorar nem 5 minutos, mas foi alem dos 15, pois o vento mal nos deixava ficar sentados, tudo queria sair voando.

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Aproveitei para tirar as luvas e conseguir algumas fotos, mas percebi que não aguentaria nem um minuto sem elas, tive que colocá-la novamente e me contentar aproveitando a vista.

Pegamos as picaretas que estavam na mochila e ali mesmo, com instruções em inglês e espanhol nos explicaram como nos locomover com os grampos e usar a picareta, me senti como em um videogame, que conforme você vai jogando e ganhando experiência, consegue ferramentas e é preciso se adaptar a elas, infelizmente naquela situação, um erro e eu não teria outra vida.

Os instrutores reforçaram que caso escorregássemos, a única coisa que poderíamos fazer era segurar a picareta jogando todo peso do corpo no equipamento e torcer para que isso nos freasse antes de cairmos em algum precipício, eles diziam “Don’t Like Rambo“, referência a algum filme que Sylvester Stallone usava apenas uma mão na picareta e conseguia se segurar, na vida real as coisas não eram assim.

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A instrução fez-se necessária pois, algumas semanas antes, umas pessoas morreram tentando escalar o Villarica, provavelmente alguém escorregou levando os outros junto, e nenhum deles conseguiu parar antes de chegar ao precipício.

Continuamos a subida, e pouco a pouco podíamos ver algumas pessoas desistindo, eu continuava preocupado com pessoas cambaleantes na minha frente, mas seguia firme e forte.

Conforme subíamos, a temperatura caia abaixo dos -10º Celsius, e os ventos pioravam, em alguns momentos tínhamos que jogar o corpo na montanha para não perder o equilíbrio, e ali ficávamos por alguns instantes até sentir que o vento diminuíra.

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A 300 metros do topo, fizemos mais uma parada, e tivemos que ver o que tanto relutávamos, a nevasca da noite anterior deixou o terreno muito perigoso e extremamento propenso a avalanches, e foi ali, faltando apenas 300 metros para o topo, com uma vista que nunca imaginei ser capaz de ver, que tivemos que aceitar, a montanha tinha ganhado de nós, teríamos que retornar, a situação não era segura.

A volta foi silenciosa, não sei se devido ao cansaço ou à decepção de não termos alcançado o topo.

Chegando ao Hostel, José me recebeu e não foi necessário nenhuma palavra, ele já sabia, veio ao meu lado e disse: “todos os anos muitas pessoas gastam quantias enormes de dinheiro (mais de 200 mil) para tentar escalar o Everest, chegam a ficar 3 semanas no ultimo acampamento esperando abrir uma brecha no tempo para conquistar o topo e sem o tempo melhorar precisam desistir por que os suprimentos acabam“.

Nunca compararia a dificuldade ($$$) e nível técnico necessário para a escalada do Everest com o que fiz, mas essas palavras me ajudaram e perceber que não importa o que fazemos, certas coisas não dependem  apenas de nós, e além disso, apesar de não ter alcançado o topo, foi um dos lugares mais incríveis que conheci, e claro que ainda voltarei, pois preciso chegar ao topo.

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Sem tempo para lamentações, nos próximos dias eu faria Rafting em águas de degelo no Rio Trancura, do Downhill no vulcão, e teria muito mais a conhecer, mas isso fica para o próximo post…

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